quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O Uno - Bouguereau, Hölderlin e Bach (Cantatas BWV 80, 140 e 147 - 2 CDs)

"Auscultando não a mim, mas ao Logos, é sábio dizer: Tudo é Um"
(Heráclito)

Esta postagem complementa a anterior... será breve.
É um cântico da unidade, a outra foi só a crítica da separação.
Não falarei muito. Basta o belíssimo quadro do pintor francês do século XIX: Bouguereau, Jovem defendendo-se de Eros, (ao lado, clique nele para ver em tamanho bem maior), a prosa poética e breve de Hölderlin e três das maiores Cantatas "Sacras" de Bach, postadas abaixo (inclusive a BWV 147 que teve seu lindíssimo coro final conhecido como "Jesus alegria dos homens" e a BWV 140 "Acordai", considerada por muitos como a maior das cantatas do mestre).
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Sim, sim, as palavras de Hölderlin e a música de Bach dizem tudo. Ouçamos Hölderlin. Trata-se das palavras finais do seu romance "Hipérion". Ouçamos:

"As dissonâncias do mundo são como as contendas dos amantes. A conciliação se dá em meio à luta, e tudo o que se separou, de novo se reúne.
As veias separam-se e retornam ao coração, e a vida própria, eterna, iluminadora é tudo."
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E vamos a esses 3 monumentos bachianos. São obras grandíosas, apesar de durarem apenas meia hora. Merecem ser comentadas separadamente.
No CD 1, a Cantata BWV 140 "Wachet auf" (Acordai).
O Coro inicial já é uma obra prima, solene e belo. Um coro luminoso, parece um Sol ao nascer, iluminando todo silêncio... então se inicia o tema da cantata: a chegada do Noivo, pede-se que a Noiva acorde, pois o Noivo já está voltando, é o erotismo místico que o Cristianismo herdou do Cântico dos Cânticos. A alma anseia por Cristo como a noiva o noivo, e o restante da cantata será esse diálogo amoroso de Cristo com a alma, de um erotismo profundíssimo... essa questão do erotismo místico no Cristianismo já me rendeu uma confusão numa comunidade do Orkut em que discutíamos justamente essa e mais outras 2 cantatas de Bach com o mesmo tema, por isso prefiro fazer uma outra postagem especificamente com esse tema que não é tão difícil encontrar nos grandes artistas cristãos, veja-se o ardente San Juan de La Cruz, os próprios versículos do Cântico dos Cânticos na Bíblia Cristã... Nesse luminoso coro inicial esse amor místico se dá de forma perfeita. E quando exatamente aos 6:17 minutos do coro inicia-se um "Aleluia" de vozes femininas, que logo após se entrelaça às masculinas, é impossível não se comover... é um instante de apenas 40 segundos, mas que eleva toda a cantata a cumes altíssimos... as vozes femininas... os oboés... a terra e suas vozes femininas se unindo às vozes masculinas de céu ao som do baixo pesado... harmonia profunda... Amor...
Também é profunda a nobre melodia da Faixa 4, serena, solene, é de uma beleza fascinante, então em emio à melodia surge a voz do arauto a dizer que o Noivo (Cristo) a chamar a Noiva a encontrar-se consigo em sua celebração...
Não é à toa que é por muitos considerada a mais expressiva cantata bachiana (embora eu ache que há outras tão grandes quanto). E, para completar, a interpretação da cantata está sob a responsabilidade de um dos maiores regentes do século XX, Karl Richter e cantores como Fischer-Dieskau e Peter Schreier. É um CD imperdível para os amantes da música.

No CD 2, as Cantatas BWV 80 e 147.
A BWV 80 "Ein Feste Burg ist unser Gott" (Castelo Forte é o nosso Deus)foi composta para as comemorações do bicentenário da Reforma. Um conjunto monumental de variações e harmonizações do Coral Luterano "Castelo Forte é o nosso Deus". Uma das cantatas mais poderosas de Bach, desde o monumental moteto que inicia a obra, passando pelo enérgico e dramático dueto, o belíssimo recitativo, a melancólica ária... enfim, monumento musical e espiritual, testemunho de uma fé inabalável. Não fundamentalista, mas inabalável, pois não há quem ache ter o fundamento de tudo diante o mistério da Música e certamente não será abalado aquele que percebe que a mesma beleza que brota a Música está em si.
A BWV 147 começa com um coro de alegria comovente, a cantata inteira é quase um catecismo luterano. Toda doutrina do cristianismo protestante está ali. Há esse maravilhoso coro inicial, há árias alegres, árias angustiadas, há um belo recitativo onde se diz "A mão do Todo-Poderoso toca os mistérios da Terra"e quando se canta a vida atribulada dos mortais sobre a terra, o coro termina cantando um sereno coral, dizendo que, apesar de tudo, Jesus continua sendo a sua alaegria "consolo e seiva do seu coração", é o tão místico e famoso coral que acabou sendo mais conhecido como "Jesus alegria dos homens". A cantata é dividida em duas partes e ao final das duas esse Coral se repete. Coloquei abaixo para vocês baixarem aquela que para mim é a maior interpretação dessas duas cantatas, apesar de nem o regente nem a orquestra serem conhecidos, até hoje não achei nenhuma outra interpretação dessas duas cantatas que tivesse tanta força, beleza, energia e sublimidade.
Abaixo os links para baixar os CDs e, abaixo deles, os textos das cantatas traduzidos.

CD 1 - CANTATA BWV 140 "Acordai"
http://www.4shared.com/file/167933436/770b5986/Bach_-_Cantata_BWV_140_-_Richt.html

Regente: Karl Richter
Orquestra Bach de Munique
Coro Bach de Munique
Soprano: Edith Mathis; Tenor: Peter Schreier; Bass: Dietrich Fischer-Dieskau

CD 2 - CANTATAS BWV 80 "Castelo forte" e 147 "Coração e boca e atos e vida"
http://www.4shared.com/file/167931687/4a75ac3e/Bach_-_Cantatas_BWV_80_e_147_-.html

Regente: Mátyás Antál
Failoni Chamber Orchestra
Hungarian Radio Chorus
Gravado em 1992 no Festetitch Castle, Budapeste, Hungria
Soprano: Ingrid Kertesi; Alto: Judit Németh; Tenor: Jozsef Mukk; Bass: István Gáti

TEXTOS das Cantatas TRADUZIDOS (original e ao lado a tradução) :
http://www.4shared.com/file/169934257/9f33f1c0/Bach_-_Cantatas_BWV_140_147_e_.html

ÓTIMA AUDIÇÃO
PEDRO

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Amor Sacro e Amor Profano - Ticiano, La Fontaine e Bach (Cantatas Profanas - COMPLETAS!!! - 8 CDs)

Mais uma postagem acerca do Erotismo, mas sem a "classe" das anteriores sobre a mesma questão, apesar de estarem aqui Ticiano, La Fontaine e Bach: é que o dono do blog está meio "saidinho" e sem paciência para retórica moral vazia. Ah, sim, e continuando a overdose de música barroca, hoje todas as 15 Cantatas Profanas de Bach COMPLETAS!

Na verdade, esta postagem é incompleta: ela fará a crítica violenta do dualismo, mas a apoteose do UNO só virá na próxima postagem.

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Esta deveria ser uma postagem polêmica... se sua polêmica fosse ao menos uma polêmica verdadeira e não uma mera questão de retórica (ou "frescura") humana. Ora, diferenciar Amor Sacro e Amor Profano! A imensa maioria dessas dicotomias não passam de invenções filosófico-morais (milenares, digamos de passagem)de promoção do desprezo ao corpo. O quadro de Ticiano ao lado (clique para ver em tamanho bem maior essa verdadeira obra-prima), contém uma intensa ironia a essa retórica platonista dogmática. A mulher que "representa" o Amor Sacro é a mesma que, ao lado, "representa" o Amor Profano, a única diferença é que vestida ela é Sacra, nua Profana. Poxa, onde se viu eu ser um quando estou vestido e outro quando estou pelado! hahaha Essas dicotomias absurdas me causam imenso desprezo, e me dá grande prazer quando aparecem gênios como Ticiano, Bach e La Fontaine para colocá-las a baixo. Na música de Bach postada abaixo também não há essa separação. A maioria dessas dicotomias não passa de retórica vazia e hipocrisia, como representa muito bem um lascivo trecho de um soneto de autor anônimo do século XVII em que justamente se brinca com os modos cortezes de se reportar a uma mulher que caracterizam um Amor Sacro e um Amor Profano:

- Que queres de mim, senhor? - Filha, foder-te.
- Diga com mais rodeios - Cavalgar-te.
- Diga ao modo cortês - Então, gozar-te.
- Diga ao modo pateta. - Merecer-te.

Pois bem, jogo toda essa multidão de platonistas dogmáticos e babadores de mulheres ideais fora e fico com a sabedoria sínica de um La Fontaine (isso mesmo, aquele cara das fábulas infantis escreveu isso). Vocês podem achar este poema vulgar, mas sua sabedoria não se pode negar. Por favor, não se prendam a esse moralismo retórico quanto ao autor ter escrito palavrão (e o tradutor os ter traduzido rsrs), poxa, que bobeira! Isso é ínfimo perto do que esse "poeminha grande" diz. Ouçamos a sabedoria sensual de La Fontaine (ah, esses franceses!):

Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo
A volúpia e os desejos são
O que a alma possiu de mais raro.
Caralho cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os devotos censuram, os loucos.
Reflete nisto, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.

Como foi dito, o autor do blog está meio "saidinho". Mas um protestante tem que ter seus momentos de alegria, não foi Lutero que disse (para sacanear um padre, como de costume rs): " Um homem que não gosta de vinho, mulher e música não passa de um tolo" ?
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E vamos às Cantatas "Profanas" de Bach.
Por que são chamadas "profanas"? Pelo mesmo caso da moça nua do quadro de Ticiano. Como não tem temática religiosa são profanas. Já escrevi na postagem da Missa em Si de Bach: "o termo 'Música Sacra' é uma redundância, se é música de verdade é sagrada". A diferença que se pode fazer é de Música Litúrgica e não liturgica, mas nunca sacra e profana. Primeiro comentarei brevemente algumas dessas cantatas e logo embaixo estarão os links para baixar em 8 Cds maravilhosos essas 15 sacras Cantatas Profanas de Bach.
São obras que surpreendem quem está acostumado com o Bach sisudo da "Arte da Fuga" e da "Missa em Si", tanto pelo uso de temas mitológios, cotidianos e até banais (como na "Cantata do Café", em que a menina fica viciada por café rsrsrsrs), como pelas melodias tão mais populares e folclóricas como na Cantata BWV 212 intitulada "Cantata dos Camponeses". Também vai se surpreender quem perceber que nas cantatas 213, 214 e 215 quase todas as árias e coros foram reutilizadas no solene "Oratório de Natal" (Já postado aqui), ou seja, música sacra em si mesma, não importando se sua utilidade é o templo, a sala de concerto ou a rua, se o texto que a acompanha é um hino de Natal, a história de Hércules, uma homenagem a um nobre da Saxônia. ou uma dor de amor. A ortodoxia luterana já previa isso no seu intuito de santificar todas as áreas da vida e Bach conhecia e seguia o célebre dito e exigência de Lutero: "O diabo não pode ficar com as melhores melodias!", por isso o protestantismo (até hoje isso é claramente visível) sempre se serviu de "música mundana" para as santificar com letras evangélicas: a idéia de que toda música é divina e que o diabo em algum momento a roubou. Até mesmo nas 200 cantatas ditas "sacras" de Bach são recorrentes o uso de temas musicais que, na época, eram cantados nas ruas, nos bordéis, nas tabernas, nas cortes etc. Outra curiosidade: entre essas cantatas profanas estão as únicas obras com texto em italiano de Bach, as cantatas BWV 203 e 209. Bach não era apenas um erudito religioso polifonista sisudo, era humano. Talvez nunca tenha sido tão humano, homem de seu tempo, como nessas cantatas.
A BWV 201 é vibrante, de um furor quase erótico.
A Cantata BWV 202 "Nupcial" é das mais lindas, sua primeira ária de de uma beleza indescritível, dá para se sentir a noiva chegando perto, cantando que se se afastem as sombras escuras para que possa se realizar o seu amor e logo após caindo numa alegria profunda. Obra-prima.
A BWV 205 talvez seja a maior de todas, polifonicamente perfeita, de árias brilhantes, coros exuberantes. Considero a BWV 202 e a 205 as maiores dessas 15.
O coro da BWV 206 já me tirou lágrimas, eu realmente ignoro o que ele canta, mas as melodias são lindas.
As BWV208, 211 "Cantata do Café" e 212 "Cantata dos camponeses" talvez sejam as mais famosas, um "Bach do povo". Na 212 eu não reconheceria que é Bach e a Faixa 10 da BWV 208 é uma das árias mais lindas e serenas de Bach. Pois bem, baixem e divirtam-se:

AS 15 CANTATAS PROFANAS de Johann Sebastian Bach

CANTATA BWV 201 "O DUELO ENTRE FEBO E PÃ"
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CANTATAS BWV 202 "NUPCIAL", 203 e 204
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CANTATA BWV 205 e QUODLIBET BWV 524
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CANTATAS BWV 206 e 207
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CANTATAS BWV 208 e 209
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CANTATAS BWV 210 e 211 "CANTATA DO CAFÉ"
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CANTATA BWV 212 "CANTATA DOS CAMPONESES" e 213 "HÉRCULES NA ENCRUZILHADA"
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CANTATA BWV 214 e 215
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Stuttgart Bach Collegium
Helmuth Rilling, conductor

Os textos das Cantatas e suas traduções (para português, espanhol, inglês, hebraico, francês e etc...) podem ser encontrados neste maravilhoso site:
http://www.bach-cantatas.com/IndexTexts5.htm

ÓTIMA AUDIÇÃO PEDRO.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Festa!!! - Velazquez, Pessoa e Telemann (Tafelmusik - "Música para Banquetes" - Completa! - 4 CDs)

Uma postagem festeira!!!! Demorei para fazer nova postagem, mas também há muita música das postagens antigas para vocês ouvirem. Pois bem, seja como for, não se repetirá mais, farei uma nova postagem toda noite de quinta-feira.
Acima, "Los borrachos ou A Festa de Baco" do grande Velazquez.
Abaixo um melancólico poema de Fernando Pessoa e, continuando a overdose de música barroca, a "Tafelmusik" de Telemann, um enorme conglomerado de obras destinadas para festas, banquetes e eventos ao ar livre, obra modelar do barroco tardio europeu, obra prima!
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Vamos primeiro ao Pessoa. Sinceramente não sei o porquê de colocar esse poema extremamente melancólico numa postagem festeira, mas é que... sei lá... hoje de manhã abri o "Cancioneiro" de Fernando Pessoa e esse poema me emocionou... ouçamos então o poema e depois vamos à música de Telemann, estreante aqui no blog.

      ABDICAÇÃO

    Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
    E chama-me teu filho... eu sou um rei
    que voluntariamente abandonei
    O meu trono de sonhos e cansaços.

    Minha espada, pesada a braços lassos,
    Em mão viris e calmas entreguei;
    E meu cetro e coroa - eu os deixei
    Na antecâmara, feitos em pedaços

    Minha cota de malha, tão inútil,
    Minhas esporas de um tinir tão fútil,
    Deixei-as pela fria escadaria.

    Despi a realeza, corpo e alma,
    E regressei à noite antiga e calma
    Como a paisagem ao morrer do dia.

    Fernando Pessoa, 1913
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Georg Philipp Telemann (1681-1767) talvez tenha sido o compositor mais profícuo do período barroco e não podemos deixar de ouvir a sua Tafelmusik. Junto com Bach e Handel foi o maior compositor do seu tempo, inclusive influenciando esses outros dois.
A Tafelmusik (cuja tradução literal seria "música para a mesa", mas seria melhor traduzir por "música para banquetes") é composta de três "Production" ou partes, e cada uma dessas partes é composta de uma Abertura-Suíte, um Quarteto, um Concerto, um Trio, um Solo e uma Conclusão.
Trata-se de uma obra escrita para ser tocada em banquetes, festas e eventos ao ar livre. Foi escrita em 1733, e é a obra mais célebre de Telemann. Teve, na altura, um sucesso giganteso, sendo encomendada por metade da Europa que gostava de música. Telemann era um enciclopedista, tal como Bach, e o conhecimento que possuia da música do seu tempo era de tal forma vasto que, nessa obra é possível fazer o registo de quase todos os instrumentos conhecidos da época. Bach (que inclusive era amigo íntimo de Telemann) e Handel (assim como quase todos os compositores da época) "imitaram" o estilo de Telemann, que era, no momento, a inspiração musical de toda a Europa. Talvez por isso ao ouvir Telemann nos pareça uma mistura meio híbrida e mediana de Bach, Handel e Vivaldi. Telemann pecou por ter escrito demais e em várias vezes só por encomenda, satisfez-se em agradar o gosto da época, e foi grande nisso, talvez por isso hoje não se tenha mais tempo para se separar o que é grande e o que é medíocre da sua enorme obra que compôs a serviços de várias cortes. É frequente se surpreender ao ouvir certos concertos de Telemann e, talvez, da Tafelmusik a Parte (Production) II seja a mais impressionante, realmente é uma obra-prima, recomendo começarem a ouvindo.
As 3 Partes (Productions) da "Tafelmusik" de Telemann que coloco para vocês baixarem, estão distribuídas em 4 CDs, vai dar um pouco de trabalho organizar as partes, mas vale a pena. Divirtam-se!


Musica Antiqua Koln, Reinhard Goebel






ÓTIMA AUDIÇÃO
PEDRO.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Do Cristianismo - Giotto, Holberg e Handel (Oratório "O Messias" - Completo)

"É preciso primeiro aprender a duvidar antes de aprender a crer." (Ludvig Holberg)


Uma postagem acerca do Cristianismo onde se adotará uma postura crítica: não apenas negar ou afirma-lo, apenas pensá-lo, observar como o Cristianismo e o mistério do Cristo foram pensados por três grandes em três obras primas.
A primeira, um quadro de Giotto (acima, clique para ver em tamanho maior), o "Lamento pelo Cristo", obra-prima da arte cristã, de uma expressividade enorme, em que a dor une terra e céu. A segunda, um fragmento de um dos mais sábios ensaios do pensador dinamarquês do século XVIII Ludvig Holberg. A terceira... ah! a terceira! com ela continuo a "overdose" de música barroca que iniciei faz duas postagens. Eis para baixar uma das mais sublimes obras de toda música, o Oratório "O Messias" de Handel, com suas árias belíssimas, algumas da mais profunda alegria, outras de uma dor profunda, com seus coros grandiosos (alguns dos quais, como o famoso "Aleluia", se tornaram quase que hinos da igreja cristã)... mas depois falemos mais dessa obra máxima de Handel, vamos primeiro ao pensamento de Holberg.
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Admitamos: somos ignorantes. Não conhecemos a grande cultura islâmica, as tradições da cultura protestante da Alemanha e Dinamarca etc... Quando se fala de Dinamarca, por exemplo, só se pensa em neve, vikins, Hamlet e Kiekergaard. Ignoramos um dos mais lúcidos pensadores do século XVIII, Ludvig Holberg (1684-1754). Grande pensador, poeta e teólogo protestante dinamarquês, um dos homens mais sábios que já li. Viveu na época em que a Dinamarca e a Noruega eram unidas sob uma só coroa, por isso também é venerado na cultura norueguesa (Grieg, aliás, vai compor a "Suíte dos Tempos de Holberg"). O trecho que coloco aqui para vocês baixarem é uma seleção do Epigrama 5 do Livro 1 dos Moralske Tanker (Pensamentos Morais). É um texto que tem pontos refutáveis como qualquer outro, mas é um dos textos mais lúcidos que já li, uma das análises mais lúcidas do Cristianismo e crítica feroz de qualquer fundamentalismo, seja político, partidário ou religioso. Alguns trechos são comoventes, outros ferozes. É um texto raro, infelizmente, tanto pela nossa ignorância quanto à cultura dinamarquesa quanto pela dificuldade de encontrar tradutores (e bons tradutores) do dinamarquês para nossa lingua. Leiam, e se surpreendam. Nem só do piadista Voltaire e do chorão Rousseau viveu o século XVIII. Holberg é um dos grandes daquela tradição protestante que frutificou na Alemanha e terras nórdicas, a tradição de Bach, Handel, dos primeiros rosacruses, não é à toa que nesta postagem o coloco junto a Handel...

PENSAMENTOS MORAIS - LIVRO I - Epigrama 5 (Fragmentos) de Ludvig Holberg
Baixar:
http://www.4shared.com/file/151053874/b163927b/HOLBERG_-_Pensamentos_Morais_-_Livro_I_-_Epigrama_5.html

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E o que dizer sobre "O Messias" do compositor alemão ("naturalizado" inglês) Georg Friedrich Handel?
Junto com os Oratórios e Paixões de Bach (já postados aqui), o maior monumento da música sacra barroca e um dos maiores da arte cristã.
Um oratório de dimensões colossais, complexo e, no entanto, sem deixar de ser popular: Quem não conhece o famoso coro "Aleluia" que termina sua segunda parte? Há Coros grandiosos como o "Aleluia!" (Faixa 31), o "And the glory of Lord" (Faixa 3) e o "Amem" (Faixa 37) entre outros. Há árias com um lirismo sem precedentes como a dolorosa "If God be for us" (Faixa 36) e a linda "How beautiful are the feet". Sem esquecer a solene "Sinfonia" que inicia esse monumento.
O texto da obra é composto de versículos bíblicos (bem à maneira protestante), arranjados de maneira que contam a vida, a obra e o sentido da obra do "Messias". É uma verdadeira epopéia cristã em música.
A Primeira Parte tem como texto as profecias sobre a vinda do Messias e seu nascimento, (o capítulo 40 do Livro de Isaías é colocado quase todo em música), é comovente quando, logo após a Sinfonia, o tenor recita num canto belíssimo as primeiras palavras "Confort ye, Confort ye my people"... O auge desse primeira parte talvez seja o conhecidíssimo coro de natal "For unto us is child is born..." ("Porque um menino nos nasceu..." - Isaías 6:9).
A Primeira Parte é linda em sua alegria pela chegada do Messias, mas é ainda mais impressionante a dolorosa Segunda Parte, quando entra em cena a paixão de Cristo.
A Segunda Parte é dolorosa, tensa sem deixar de ser bela, uma tensão imensa, melancólica, um dos mais belos lamentos do sofrimento de Cristo. Como não se comover ao ouvir a Faixa 16 "He was despised"? A ultrajante zombaria e desafio da multidão diante a cruz na faixa 20, quando uma fuga aproveita as repetições pronominais da lingua inglesa. Ah, e a bela e melancólica "Thou art gone up on high"! Essa tensão e todo sofrimento se desfaz no último coro, quando após todo sofrimento se anuncia com versículos do Apocalipse de S. João: "Aleluia! Aleluia, pois o Senhor Onipotente reina!". É esse famoso coro que, no século XVIII se tornou quase um hino do protestantismo e ainda hoje é cantado em ocasiões solenes em algumas igrejas, mas talvez perca bastante do seu sentido fora do todo do Oratório, dentro do Oratório ele é cântico de libertação e vitória sobre a morte... e as palavras "Rei dos Rei, Senhor dos Senhores", cantadas diante das aristocracias absolutistas da época, talvez anunciassem que não eram tão absolutas assim.
A Terceira Parte trata da vitória do Messias sobre a morte e a espera da igreja pela sua volta. Começa com uma das mais lindas orações musicais que já ouvi "Eu sei que meu rendetor vive"... Um dueto desafiará a morte a mostrar sua vitória, e uma ária dolorosa e solene cantará "Se Deus é por nós que é contra nós?". Essa ária (Faixa 56) é um dos pontos altos do Oratório, de uma nobreza e de um lirismo sublimes. Após o majestoso coro "Worthy is the Lamb" (talvez o maior coro da obra - Faixa 37), o Oratório termina com o "Amém", uma grandiosa fuga, colossal...
É interessante notar como Handel interpreta tão liricamente certos versículos tão desleixadamente tratados pelos cristãos dogmáticos de hoje, com transforma esses versículos em coros grandiosos de mil significados, para além de qualquer sectarismo. Por conta desse oratório Handel foi considerado até o final do século XIX (quando se redescobriu Bach) como o maior compositor de todos os tempos, além de referência para a arte (dificílima aliás) de pôr um texto em música indissoluvelmente. Beethoven o considerava o maior compositor que já existiu, e Nietzche relata que a primeira vez em que percebeu o poder dionisíaco e expresivo da música foi ouvindo o "Messias" de Handel. Mozart vai reorquestrar esse mesmo oratório, que ele admirava tanto. É uma obra que faz parte do universo espiritual da nossa civilização, deixar de ouvi-la em sua completude é perder toda uma experiência que poucas vezes se tem num mundo como o nosso, cada vez mais vazio de sentidos.
Abaixo, coloco o texto da obra, com tradução interlinear para o português. É uma experiência única acompanhá-la com o texto para se perceber certas sutilezas e a força dramática da música de Handel. O link para baixar o Oratório está dividido em três partes, é só depois juntar todas as faixas numa só pasta. É mais uma obra para se ouvir de joelhos!

Texto do Oratório (Vale a pena imprimir e acompanhar a música com ele!):
http://www.4shared.com/file/151689874/f01755b3/Handel_-_Texto_do_Oratorio_O_Messias.html


"THE MESSIAH" (O MESSIAS) - Oratório HWV 56 de Georg Friedrich Handel
PRIMEIRA PARTE
http://www.4shared.com/file/133934650/eace9d95/Handel_-_O_Messias_-_Parte_1_-_somenteparaanobrezablogspotcom.html
SEGUNDA PARTE
http://www.4shared.com/file/133944394/f5fd087b/Handel_-_O_Messias_-_Parte_2_-_somenteparaanobrezablogspotcom.html
TERCEIRA PARTE
http://www.4shared.com/file/133949809/a4b1f8b3/Handel_-_O_Messias_-_Parte_3_-_somenteparaanobrezablogspotcom.html

Orquestra e Coro St. Martin-on-the-Fields
Regência: Neville Marriner

ÓTIMA AUDIÇÃO
PEDRO.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Universo - Rumi, Van Gogh e Vivaldi (Concertos para Sopros, Magnificat, Gloria, Dixit Dominus e outras obras sacras)



A postagem de hoje transpira enigma... Por que "Universo"? Sei lá. Veja, leia, ouça... e viva! Hoje, mais poesia persa e mais overdose de música barroca (uma coletânea de obras sacras e instrumentais de Vivaldi)

Ao lado "Noite Estrelada" de Van Gogh.








Abaixo, algumas migalhas da sabedoria e beleza da poesia de Jalal ad-Din Muhammad Rumi, ou apenas Rumi (1207 - 1273), um dos maiores poetas, sábios e místicos (tripla redundância!) persas. Nasceu numa área que hoje seria o Afeganistão. Outro gênio que a nossa ignorância perante a grande cultura islâmica nos faz ignorar. Realmente grande, é para a arte persa pós-Alcorão o que Goethe é para a arte alemã e Shakespeare apra a inglesa. De um erotismo místico que antecipa San Juan de la Cruz e Eckhart, de uma sabedoria de vida que lembra os versos maduros de Goethe, de alguns versos que lembram um Nietzche (e, realmente, Nietzche leu a poesia persa antiga, veja-se o seu Zaratustra). Poucas vezes o divino foi cantado de modo tão belo... ouçamos Rumi:

Oh, dia, levanta! Os átomos dançam,
As almas, loucas de êxtase dançam.
A abóbada celeste, por causa deste Ser, dança,
Ao ouvido te direi aonde a leva sua dança.

Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.

________

Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.

Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.

________

Ontem à noite, confidencialmente, eu disse a um velho sábio:
- Não me esconda nada dos segredos do mundo!
Muito docemente, ele me disse ao ouvido:
- Chut! Podemos compreender, mas não exprimir!

(Como isso me lembra aquela afirmação de St. Agostinho sobre o Tempo: "Eu sei o que é, mas não sei explicá-lo")

_________

Quero fugir a cem léguas da razão,
Quero da presença do bem e do mal me liberar.
Detrás do véu existe tanta beleza: lá está meu ser.
Quero me enamorar de mim mesmo, ó vós que não sabeis!

(o segundo verso não parece escrito por Nietzche?)

_________

Ele chegou... Chegou aquele que nunca partiu;
Esta água nunca faltou a este riacho
Ele é a substância do almíscar e nós o seu perfume,
Alguma vez se viu o almíscar separado de seu cheiro?

(E PENSAR QUE QUASE 8 SÉCULOS DEPOIS DE RUMI O OCIDENTE AINDA TEIMAVA EM SEPARAR SER E ENTE, ESPÍRITO E MATÉRIA, ESSÊNCIA E APARÊNCIA...)

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Sou medido, ao medir teu amor.
Sou levado, ao levar teu amor.
Não posso comer de dia nem dormir de noite.
Para ser teu amigo
Tornei-me meu próprio inimigo.

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Continuando a prometida overdose de música barroca
De Vivaldi, uma coletânea de concertos e música sacra (no total de 3 CDs)

No CD 1, uma pequena coletânea de concertos para sopros. O primeiro concerto (para 2 Flautas e cordas) é uma obra-prima consumada de Vivaldi, digno de estar ao lado daqueles quatro Concertos Op.3 (n°6,8,10 e 11 que já postei aqui faz um tempo) como das maiores obras-primas de Vivaldi. Desde seu primeiro movimento quase orquestral até seu último movimento, lindo, de uma doçura e beleza sutis. Os outros concertos do Cd são igualmente grandes, destaque para o Concerto para Fagote intitulado "A Noite", no mesmo gosto pictórico das conhecidas "4 estações", a Alvorada no último movimento desse concerto é sublime. Assim também o grave Concerto para Oboé. Grave só no começo, claro, tudo em Vivaldi termina com festa! rsrsrs

Nos CDs 2 e 3, uma coletânea de algumas das maiores obras sacras de Vivaldi. São, injustamente , pouco conhecidas. Não tem a gravidade e elevação das obras bachianas, nem a pompa e expressão dos oratórios de Handel, antes o mesmo frescor e sensualidade das obras instrumentais. Algumas lembram uma enorme dança (como o final do Dixit Dominus) outras uma fúria sensual quase dionisíaca (como algumas árias do Gloria), mas isso acompanhado de uma solenidade que santifica a dança e o corpo, que faz deles um só com o Divino. É impressionante como Vivaldi, que inclusive era padre, trata o sagrado de modo tão intríseco ao homem, como uma dança, o corpo. Os destaques são o "Gloria RV.589" no CD 2 e o "Dixit Dominus" RV.595 no CD3, este último é talvez a maior obra sacra de Vivaldi, digna de estar ao lado das grandes obras de Bach e Handel. Carpeux a definiu como uma obra de "dignidade bachiana". São imperdíveis também o grave Magnificat e o sombrio In exitu Israel. Quem só conhece de Vivaldi a obra instrumental vai se surpreender com sua música sacra (já foram postados aqui algumas motetos de Vivaldi, é só procurar rs) Ouçamos:

CD 1 - VIVALDI - CONCERTOS PARA SOPROS
http://www.4shared.com/file/135426323/726a5fdc/Vivaldi_-_Concertos_para_Sopros_-_somenteparaanobrezablogspotcom.html

1 a 3 - Concerto para 2 Flautas e Cordas
4 a 6 - Concerto para Fagote e Cordas "A Noite"
7 a 9 - Concerto para Oboé e Cordas RV. 457
10 a 12 - Concerto para Flauta e Cordas RV.108

CD 2 - VIVALDI - MAGNIFICAT E GLORIA
http://rapidshare.com/files/295325100/Vivaldi-Magnificat_Gloria-R.Muti.rar

1 a 11 - Magnificat RV. 611
12 a 23 - Gloria RV. 589

New Philharmonia Chorus & Orchestra
Riccardo Muti


CD 3 - VIVALDI - MÚSICA SACRA CORAL - Volume 5
http://rapidshare.com/files/232354768/Vivaldi-SacredChoralMusic-VNegri-Vol_5.rar

1 a 5 - Sacrum RV 586
6 a 8 - Introdução ao Dixit RV 365
9 a 19 - Dixit Dominus RV 595
20 - In exitu Israel RV 604

John Alldis Choir
English Camber Orchestra
Vittorio Negri


ÓTIMA AUDIÇÃO
PEDRO.


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Sabedoria - Rodin, Saadi e Bach (9 Concertos e 1 Sinfonia - 3 Cds)

Não sei o porquê desta postagem intitular-se "Sabedoria"...
Sabedoria, ou sábio, não é título ou atributo que se acrescenta às coisas, é algo que se dá no próprio viver a vida.
Geralmente costumamos chamar sábio somente aquilo que concordamos como sabio. Ou seja, na maioria das vezes a sabedoria das pessoas que admiramos como sábias é nosso conceito de sabedoria. A Vida é sábia. Ainda que não racional nem concordante com os nossos princípios: A vida é sábia. A música é sábia, embora não diga coisa alguma, diz todas as coisas. Alias, a proposição "a música é sábia" é uma tremenda redundância.
Nesta postagem alguns aforismos de Mucharrif ed-Din, conhecido como Saadi, um dos maiores poetas persas islâmicos que já houveram, em que justamente a sabedoria ocorre como a vida... sem maiores sistematizações, sem anseio de promover uma ideologia... entre o admirar uma mulher bela e contemplar os segredos de Allah, entre admirar a extrema sabedoria da natureza e se revoltar contra a injustiça entre os homens, a sabedoria somente acontece...
E terminando a postagem uma verdadeira overdose de música Bachiana: 9 Concertos e 1 Sinfonia para diversos instrumentos. Música Sábia, Música redundante: Música plena de si mesma, Absoluta. Nesses concertos está desde o Bach lírico até o Bach matemático, o Bach revoltado e o Bach serenamente religioso... Aliàs, já aviso: Nas próximas quatro postagens teremos uma overdose total de música barroca, preparem seus espíritos.

Acima, a famosa escultura "O Pensador" de Auguste Rodin (Clique para ver em tamanho maior).
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Vamos à sabedoria de Saadi. Nasceu em 1184 d.C (Ano 580 da Hégira, calendário islâmico) e morreu em 1291. Ou seja, morreu com 107 anos! segundo o seu mais antigo biógrafo: "consagrou 30 anos ao estudo, 30 anos percorrendo o mundo e durante outros 30 anos prosternou-se sobre o tapete da adoração para seguir as pegadas dos discípulos do Caminho". Grande poeta e sábio que nossa ignorância diante a grande cultura islâmica nos faz ignorar. Sua obra mais conhecida é o livro "O Jardim das Rosas". Transcrevo aqui dessa obra-prima alguns aforismos dos capítulos intitulados "Acerca da Vida", "Acerca de Deus (Allah)", "Sobre o Amor"... quem puder algum dia compre o livro, é lindo, ao começar da primeira frase, presente no início de todas as suratas do Alcorão, súplica e ao mesmo tempo invocação: "Em nome de Allah, Clemente, Misericordioso..."
A tradução que coloco aqui é a de Aurélio Buarque de Hollanda (isso mesmo, o do dicionário).

Ouçamos a poesia de Saadi, simples, às vezes dita numa frase insignificante (lembra-me alguns dos fragmentos de Heráclito). E, por favor, não tratem essas pequenas frases de sabedoria como somente mais uma frase "maneira" para colocar no Orkut ou no MSN. Reflitam... pensem. Ouçamos:

SOBRE A VIDA:

Não estendas as pernas além do cobertor.

Quando morreres, só levarás aquilo que tiveres dado.

Sê como o sândalo, que perfuma o machado que o fere.

Se queres consolar-te, pensa em todos os males de que estás isento.

Provas a tua tolice quando interrompes uma conversa para enunciar a tua opinião

Não pronuncies em segredo nenhuma palavra que não poderias pronunciar diante de mil pessoas.

Lastima aquele que julga haver achado a felicidade. Inveja aquele que a procura e que a abandona assim que a encontra. A única felicidade consiste em esperar a felicidade.

Não reveles ao amigo todos os teus segredos: sabes se ele não se tornará, um dia, teu inimigo?Não causes a teu inimigo todo o mal que lhe podes fazer: sabes se ele não se tornará, um dia, teu amigo? Esse segredo que desesjas ter oculto, não o contes a ninguêm, nem mesmo ao amigo digno da tua confiança. Como queres que outra pessoa seja mais zelosa com o teu segredo do que tu mesmo?

SOBRE ALLAH

A verdadeira prece, a mais nobre, consiste em murmurar: "Senhor, eu sou incapaz de te conceber, de te definir."

Estende a mão aos que caem. Allah estender-te-á a Sua.

Quem criou as estrelas, as flores, o homem? A despeito de sua fraqueza e sua ignorância, ou antes, precisamente por causa deles, o homem responde: "Allah!" Quando ouviremos a resposta das estrelas e das flores?

Tu procuras Allah, e não te perguntas se Ele precisa de ti.

SOBRE O AMOR

Hoje uma mulher tediz "não". Amanhã, sem dúvida, te dirá "sim". Entre estas duas palavras há um "talvez", que é o melhor do amor.

Muitas veses o amor caminha perto de nós, cauteloso, buscando não sair da sombra onde o confundimos com a amizade.

No amor, o momento mais difícil é aquele em que se cai, saciado.

É loucura discutir com uma mulher. Acaso discutes com a água, o fogo, o vento?

Tua amada te repete que nunca pertenceu a outro homem. Contou-te a sua vida, citando os nomes das pessoas que lhe podem confirmar as declarações. E, no entanto, sorris: bem sabes que ela já pertenceu a outro, e está mentindo. Mas que importa! Seus lábios serão menos menos belos ao contato dos teus ou a sua cintura menos flexível às tuas carícias por isso?

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E VAMOS AOS CONCERTOS DE BACH!!!
3 CDs com 10 Obras da maior perfeição, obras-primas absolutas do concerto barroco.
No CD 1, os líricos, belíssimos, concertos para oboé e uma suntuosa, pomposa, Sinfonia. Destaque para o primeiro concerto (BWV 1060), o segundo movimento dele é uma das melodias mais lindas que já ouvi, um dos cantos mais belos e líricos de Bach. Esse concerto é uma das realizações bachianas mais perfeitas e, no entanto, talvez das mais simples.
No CD 2, o destaque certamente é o primeiro concerto (BWV 1052). É duma revolta e de um furor dionisíaco sem precedentes na obra de Bach, que leva o virtuosismo (quase demoníaco) às últimas consequências, jorrando como uma tempestade. O último movimento desse concerto, essa verdadeira efusão dionisíaca, canto dionisíaco sem palavras, é um dos marcos da história da música. São igualmente grandes os outros concertos desse CD, mas os BWV 1063 e 1061 já são de uma transbordante alegria, acompanhados de uma tremenda melancolia. Tão alegres e belos que em certos momentos provocam lágrimas. O BWV 1061 é de uma perfeição que assombra, lá está Bach com suas fugas, comovendo o espírito humano à vista de si mesmo.
No CD 3... pois bem nesse concerto BWV 1044 que abre o CD vemos o costumeiro Bach severo, o das fugas, o das construções musicais de perfeição matemática. Música que antecipa os últimos quartetos de Beethoven e Bartok. Música que parece guardar em cada acorde os segredos do universo. O Concerto é de uma imensa tensão que nunca se desfaz. É perfeito, de um tecido polifônico perfeito... ouvi-lo é como contemplar o universo... sem palavras... E o CD termina com dois concertos de abundante alegria bachiana.
Os concertos estão na interpretação impecável do Concertus Musicus Wien sob a regência do grande Nicolaus Harnoncourt (na minha opinião a melhor interpretação já feita desses concertos)

CD 1 - CONCERTOS PARA OBOÉ E SINFONIA:
http://www.4shared.com/file/128505640/b5a6257e/BACH_-_Concertos_com_obo_e_Sinfonias.html

1 a 3 - Concerto para Oboé, Violino e Cordas BWV 1060
4 a 6 - Concerto para Oboé e Cordas BWV 1059
7 a 9 - Concerto para Oboé e Cordas BWV 1055
10 - Sinfonia para violino, 3 trompetes, tímpano, 2 oboés e cordas BWV 1045

CD 2 - CONCERTOS PARA CRAVO:
http://www.4shared.com/file/128936156/6246b2ca/BACH_-_Harpsichord_Concertos.html
1 a 3 - Concerto para Cravo e Cordas BWV 1052
4 a 5 - Concerto para 3 Cravos e Cordas BWV 1063
7 a 9 - Concerto para 2 Cravos e Cordas BWV 1061

CD 3 - TRIPEL-CONCERTO E CONCERTOS PARA CRAVO:
http://www.4shared.com/file/144068838/d28ac9bc/Bach_-_Triplo-Concerto_e_outros.html
1 a 3 - Concerto BWV 1044 para flauta transversa, cravo, cordas e baixo contínuo (
Tripel-concerto)
4 a 6 - Concerto para 3 Cravos e Cordas BWV 1064
7 a 9 - Concerto para Cravo e Cordas BWV 1053


ÓTIMA AUDIÇÃO
PEDRO.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A Morte e a Donzela - Munch, Matthias Claudius e Schubert (Lied e Quarteto de Cordas n°14 "A Morte e a Donzela")

Três gigantes da arte pensando a Morte.

Começou tudo quando o grande poeta alemão Matthias Claudius escreveu essa pequena obra-prima da poesia alemã, o poema "A Morte e a Donzela", um pequenino e simples mas profundo e terrível diálogo entre uma donzela e a Morte.
Schubert, em 1817, vai musicar o poema de Matthias Claudius, e essa composição vai ser o sombrio Lied D 531.
O tema inicial desse Lied o próprio Schubert usou na estrutura do seu lendário Quarteto de Cordas n°14, intitulado por isso "A Morte e a Donzela". Esse Quarteto de Cordas é mais uma daquelas obras terríveis de Schubert. Magnífico!
Já no século XX, Munch comovido com o Quarteto de Schubert vai pintar esta obra prima da pintura expressionista (acima, clique para ver em tamanho maior) intitulada "A Morte e a Donzela". Ou seja, nesta postagem temos o diálogo direto de três gênios que resultou em três obras primas da arte germânica e universal.

Eis o poema de Matthias Claudius (em alemão e a tradução para português a cada verso):

DER TOD UNS DAS MÄDCHEN (A MORTE E A DONZELA)


Matthias Claudius (1740 - 1815)

Das Mädchen (A donzela):
Vorüber! Ach, vorüber! (Vai-te embora ! Oh Vai-te embora ! )
Geh, wilder Knochenmann! (Vai-te, cruel esqueleto ! )
Ich bin noch jung, geh Lieber! (Ainda sou nova, vai querido!)
Und rühre mich nicht an.
(E não me toques.)

Der Tod (A Morte):

Gib deine Hand, du schön und zart Gebild! (Dá tua mão, bela e terna forma!)
Bin Freund, und komme nicht, zu strafen. (Sou amiga, e não vim para castigar)
Sei gutes Muts! ich bin nicht wild, (Anima-te! Não sou cruel, )
Sollst sanft in meinen Armen schlafen! (Dormirás docemente nos meus braços! )

Ouçam, primeiramente, como Schubert musicou esse poema (para já irem se preparando emocionalmente para o Quarteto), o lied consegue ser sombrio ao mesmo tempo que terno. É imprecionante a profundidade de como Schubert lida com a questão da Morte neste pequenino Lied de um pouco mais de 2 minutos; logo ele também destinado a morrer tão cedo (31 anos!!!). O intérprete desta gravação é também magnífico, o Lied é cantado quase sussurrado... Fischer-Dieskau realmente foi um dos maiores cantores do século XX...
Lied "Der Tod und das Mädchen" D 531 (1817) de Franz Schubert (1797 - 1828)
Baixe aqui:
http://www.4shared.com/file/142249567/dbfe130f/Schubert_-_Lied_-_Der_Tod_und_das_Madchen_Op7_n3_D_531.html
Barítono: Dietrich Fischer-Dieskau, Piano: Gerald Moore

E a agora o Quarteto de Cordas n°14 "A Morte e a Donzela"!
Mais uma daquelas obras que não se pode ouvir indiferentemente. Junto com aquele Quinteto para Cordas e a Sinfonia n°9 (já postados aqui) a coroação da arte de Schubert na música instrumental. Poucas vezes a morte foi posta em música com tamanha beleza e profundidade. Schubert não compôs um requiem, mas esse Quarteto é muito mais profundo que um requiem cantado, é um réquiem sem palavras. O primeiro movimento angustiado, cheio de tensão, até a angústia de Schubert é bela. O violino parace me lembrar alguem lutando contra a morte, não é à toa que em aguns momentos desse primeiro movimento o violino "grita". É angustiante e, no entanto, é tão lindo...
O segundo movimento começa com o tema inicial do Lied "A Morte e a Donzela" e após várias variações desse mesmo tempo, algumas esperançosas, outras sombrias, outras angustiadas como o primeiro movimento do quarteto. É como se o primeiro movimento fosse a fala angustiada e amedrontada do homem diante a morte e o segundo movimento a resposta misteriosa, enigmática, da Morte. Esse segundo movimento realmente é incomparável, profundo, e tão simples! guiando até o dançante e sombrio terceiro movimento, um Scherzo impregnado dum certo humor negro. Até o quarto movimento, um Presto, obstinado, incessante, jubiloso...
Ouçam o que Carpeaux escreveu sobre esse Quarteto : "Ocupa lugar à parte da obra de Schubert o Quarteto n°14 (1824) denominado A Morte e a Donzela [...]. Acima de qualquer elogio estão o primeiro movimento, meio trágico, meio nostálgico, assim como o energético scherzo e o jubiloso final; mas são sobretudo aquelas variações, do 2° movimento, expressão serena da angústia da morte, que já inspiraram a um crítico a frase justa: Esse quarteto é o opus metaphysicum de Schubert. Está dignamente ao lado dos últimos quartetos de Beethoven, cuja série o mestre iniciou naquele mesmo ano de 1824.
Ouçamos:

QUARTETO DE CORDAS N°14 D 810"A MORTE E A DONZELA" de Franz Schubert

Baixe aqui:
http://www.4shared.com/file/142168517/d057c363/D_810_-_QUARTETO_DE_CORDAS_N_14_A_MORTE_E_A_DONZELA.html
Quarteto Melos (magnífica interpretação!!!)


ÓTIMA AUDIÇÃO

PEDRO.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O Erótico - Rodin, Drummond e Wagner (Lohengrin, Tristão e Isolda - Prelúdios)

Não vou perder meu tempo tentando explicar que erotismo não é sinônimo de pornografia nem mesmo de sexualidade (embora compreenda esta). O erótico é muito mais. Basta-nos ler este grandioso poema de Drummond que abre o seu livro "Amor Natural". Dialoga diretamente com os dois últimos poemas aqui postados, de Goethe, "Reencontro" e "Reconciliação" e assim como esse último é cosmogonia, reflexão e canto de amor. Um dos poemas mais profundos da língua portuguesa. poucas vezes o corpo foi visto e dito de maneira tão bela, tão "excedente". Excede toda compreensão e, no entanto, todo corpo o compreende.
Como disse, não perderei tempo "defendendo" o erótico aqui, todo aquele que tiver o mínimo de sensibilidade e souber ouvir o divino (afinal este blog é para nobres, não é?)lerá este poema de Drummond e compreenderá a extensão do que se diz ali. A leitura dessa obra-prima me remeteu imediatamente a essa linda escultura de Rodin acima (clique para ver em tamanho maior), "Cupido e Psique". Mais uma vez o reencontro e reconciliação de alma e corpo, terra e céu... e me lembrou os acordes das óperas "Tristão e Isolda" e "Lohegrin" de Wagner (do qual abaixo posto os Prelúdios para vocês baixarem), são daquelas músicas que parecem guardar todos os segredos do universo...
Ouçamos o poema de Carlos Drummond de Andrade. Como já dito acima, esse poema abre o livro "Amor Natural", publicado após a morte de Drummond. Um monumento de erotismo e pensamento. Livro para poucos: os moralistas o desprezarão, os imorais o banalizarão. Um livro para nobres. Ouçamos:

Amor — pois que é palavra essencial

Amor — pois que é palavra essencial
comece esta canção e tudo a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
Reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma a expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
Fundido, dissolvido, volta à origem
Dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
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Ouçamos agora Wagner na interpretação do nobre Karajan à frente da Filarmõnica de Berlim.
Quem não se comove aos acordes iniciais do Prelúdio do 1ºAto da Ópera Lohengrin? Os violinos parecem estar descendo suavemente dos céus e aos poucos preenchendo da paz celestial toda a terra. Céu novamente se encontrando com a terra. É mais uma daquelas obras que tem que ser ouvidas de joelhos. Dane-se o fato de Wagner ter sido um mau caráter, anti-semita, filho da &¨*$% em vida. O que a obra dele tem a ver com isso? ouçam esse prelúdio do Lohengrin e me apontem ali uma nota com mau caráter ou um acorde anti-semita! Esse prelúdio é divino. A Música de Wagner é maior que o homem Wagner, tanto que Wagner está morto e com ele mortas suas transgressões, a música dele viverá enquanto houver música. Uma música que redime o mundo. Repito, ouçam esse prelúdio, os violinos descendo, como uma dádiva da Divindade aos mortais...
E o que dizer da heróica Abertura da Ópera "Tannhäuser"?
E o que dizer do "Prelúdio e Morte de Amor" da Ópera "Tristão e Isolda", a maior obra de Wagner? Assim dirá Carpeaux desse monumento: "Tristão e Isolda é a transfiguração musical do amor, da morte e do nada, do Nihil no fundo do Universo, que esse mago soube fazer ouvir: as harmonias trágicas das esferas". Não digo mais nada, apenas calo-me humildemente, e escuto...

PRELÚDIOS DE ÓPERAS de Richard Wagner
Baixe aqui:
http://www.4shared.com/file/128496050/7cc976b7/Wagner_-_Peas_Orquestrais_-_Karajan.html

1 - Lohengrin - Prelúdio do 1º Ato
2 - Lohengrin - Prelúdio do 3º Ato
3 - Tristão e Isolda - Prelúdio e Morte de Amor
4 - Tannhäuser - Abertura e Festa de Venusberg

Regente : Herbert Von Karajan
Filarmônica de Berlim

ÓTIMA AUDIÇÃO
PEDRO.

domingo, 11 de outubro de 2009

A Beleza - Velásquez, Goethe e Schubert (Sinfonia n°9 "A Grande")

"Ambos somos sobre a terra
Em prazer e dor perfeitos"

(Reencontro - Goethe)


Deve ser já a quarta postagem que faço acerca da beleza... mas o que se pode fazer quando se vê esse lindo quadro de Velásquez, se lê essa obra-prima de Goethe e se ouve a Sinfonia n°9 "A Grande" de Schubert, que Carpeaux comovido definiu como a "expressão de um sonho infinito de beleza fascinante". Eu porém digo que não é expressão... é esse próprio sonho... realizado...
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A morena linda de corpo belíssimo e delicado no quadro acima é Vênus e o título do quadro de Velásquez é "Vênus ao espelho" (Clique nele para vê-lo em tamanho maior). É um quadro de uma beleza fascinante, enigmática, desde a curva do corpo lindo de Vênus até seu rosto embaçado no espelho embaçado... o seu rosto não se pode ver totalmente, está em cada rosto visto... ontem mesmo vi o rosto de Vênus, me acheguei mais perto, mais perto, e vi que ela era a minha namorada rsrsrs. Ninguém vê o rosto de Vênus, porém o vêem a todo tempo em cada mulher, em cada ser onde beleza e amor se fazem presentes. Isso me lembra um poema belíssimo de Goethe, na verdade um diálogo, que já postei aqui na última postagem acerca da beleza: o diálogo entre o velho Rumi e a jovem Zuleica. E a visão do quadro, quase como uma profecia, invoca em mim as palavras de S. Paulo (I Coríntios 13): "Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido."
Isso não diz que a beleza perderá seu mistério, senão não é mais beleza, mas que talvez um dia nos reconciliemos com ela (como reza o poema "Reconciliação" que coloquei na última postagem)... Ah, e como se reconciliar e se reecontrar com a beleza e com seu mistério é tão difícil a nós, criados em meio às leis dos mercados e às exigencias do consumo... como pudemos nos desacostumar da beleza que excede todo entendimento?
Esse reencontro se dá na arte. E a arte em que ocorre o reencontro é rara. Muito rara. Não é para qualquer artista de esquina. É, antes que tudo, um acontecimento. Poucas vezes aconteceu, como no poema de Goethe que coloco a seguir e na Sinfonia n°9 de Schubert que está abaixo para baixar. Leiam, ouçam e reencontrem-se, e reconciliem-se...
Nesse poema intitulado "Reencontro" (do livro "Divã Ocidental-Oriental")Goethe faz talvez uma das suas mais comoventes reflexões sobre a beleza e o tempo. "Reencontro" é um dos pontos mais altos da lírica do Goethe maduro... É cosmogonia, reflexão e canto de amor.
Como o poema é um pouco extenso (6 estrofes), aqui está em Word para ser rapidamente baixado (tradução em português e original em alemão):
REENCONTRO - J.W.GOETHE - Trad. Paulo Quintela
http://www.4shared.com/file/140035397/7a4aa0f8/Goethe_-_Reencontro_-_Trad_Paulo_Quintela.html

E agora a Sinfonia n°9 "A Grande" de Schubert.
O comentário de Carpeux sobre ela: "Essa Sinfonia é uma obra excepcional mesmo dentro da riquíssima obra de Schubert. A Sinfonia n°9 em dó maior, que deve o apelido Grande ao seu tamanho incomum, plenamente justificado pela substância musica, expressão de um sonho infinito de beleza fascinante, é o ponto mais alto do romantismo alemão na música sinfônica, a maior sinfonia que foi escrita entre Beethoven e Bruckner".
É uma obra incomum... as melodias tão simples mas de uma beleza tão complexa, a obra ergue-se como uma imensa catedral de enormes dimensões onde, aos poucos, entra a luz vibrante do sol e mostra o colorido dos seus vitrais... Foi essa sinfonia que me abriu os olhos para a beleza da música de Schubert, e nessa mesma interpretação que posto aqui (a de Claudio Abbado). Ouvindo o primeiro movimento da sinfonia, sinceramente, em alguns momentos não sei se choro ou se me prostro. Sinceramente, não achei nenhuma outra sentença que tão bem me lembrasse dessa Sinfonia senão "Sonho infinito de beleza fascinante"... quando a ouço sinto a beleza fascinante dos nossos sonhos infinitos...
Ouçamos:

SINFONIA N°9 EM DÓ MAIOR "A GRANDE" de Franz Schubert.
Baixe aqui:

http://rapidshare.com/files/72508230/Symphony_9.rar

The Chamber Orchestra of Europe
dir.
Claudio Abbado


ÓTIMA AUDIÇÃO

PEDRO.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Reconciliação - Goethe, Klimt e Schubert (Quinteto para Cordas D. 956)

Reconciliação. De que?
De tudo. De nada. Terra e Céu. Amado e Amada. Som e Silêncio... infinito.
Apenas mergulhe no conhecidímo quadro de Klimt "O Beijo" (clique nele para vê-lo em tamanho maior) e se abisme no terceiro poema da monumental "Trilogia da Paixão" de Goethe: Reconciliação. Ao som do Quinteto para Cordas de Schubert, que está abaixo para baixar, uma das mais belas e complexas obras que já ouvi.

RECONCILIAÇÃO (3º Poema da "Trilogia da Paixão")

A paixão traz a dor! — Quem é que acalma
Coração em angústia que sofreu perda tal?
As horas fugidias — para onde é que voaram?
O que há de mais belo em vão te coube em sorte!
Turbado está o espírito, o agir emaranhado;
O mundo sublime — como foge aos sentidos!

Mas eis, com asas de anjo, surge a música,
Entrelaça aos milhões os sons aos sons
Pra varar, lado a lado, a alma humana
E de todo a afogar em eterna beleza:
Marejado o olhar, na mais alta saudade
Sente o preço divino dos sons e o das lágrimas.

E assim aliviado, nota em breve o coração
Que vive ainda e pulsa e quer pulsar,
Pra ofertar-se de vontade própria e livre
De pura gratidão pela dádiva magnânima.
Sentiu-se então — oh! pudesse durar sempre! —
A ventura dobrada da música e do amor.

Tradução de Paulo Quintela.

Nenhuma outra música me parece tanto brotar das palavras desse poema do Altíssimo e Profundíssimo Goethe como o lindíssimo Quinteto para Cordas de Schubert. Que música! Imensa.
O primeiro movimento... não tenho palavras. Ali está tudo... tudo, tudo, tudo! a amargura, o prazer, a dor, o amor, a vida, a morte. Ali está tudo dito e, no entando, a música diz... nada. Se eu fosse Pessoa diria que este primeiro movimento (se bem que assim é toda a obra) é o "nada que é tudo".
O segundo movimento, um violino solene parece anunciar a beleza perene que há de vir, uma profecia, e ao mesmo tempo a consumação da profecia, a beleza perene já presente. A Cidade Eterna e a Cidade Temporal já reconciliadas - diria S. Agostinho. O violino soa como um arauto, solene, angustiado e emocionado da eterna beleza que há de vir sem se aperceber que com ele a beleza já vem, mensageiro e mensagem, início e consumador. Música imensa, como um imenso sonho tantas vezes realizado, mas sempre por realizar. Música da imensidão.
O terceiro movimento com seu rústico Scherzo, a dança infinda, que cai num Andante sombrio que me lembrou um quarteto de Bartok, e volta à dança, alegre, humana, rumo ao quarto movimento.
Nesse quarto movimento logo de início nos vem aquele Schubert apenas elegante que costuma-se esteriotipar, mas por trás dessa aparente simplicidade está toda tensão e angústia, toda dor, todo prazer. Quem adentrar esse templo cairá nesse abismo de beleza que se estende para além de qualquer estereotipação romântica, sentimentalista ou de qualquer outro estilo de época. É uma obra imensa, de um Schubert digno de estar ao lado de Bach e Beethoven, que influenciou Bartók, que Brahms tomou como modelo na sua música de câmara. A maior obra de câmara de Schubert e um das maiores de toda música ocidental e, no entanto, é tão pouco ouvida!!!
A interpretação desse monumento é feita pelo Emerson String Quartet (o mesmo que interpretou os Quartetos de Bartok na postagem anterior) com participação mais que especial do quinto instrumentista no violoncelo: nada mais, nada menos, que o lendário violoncelista russo Mistilav Rostropovich. Música de primeira, intérpretes de primeira exigem um ouvinte de primeira, espero que você possa atender a demanda rsrsrsrs.

QUINTETO PARA CORDAS D 956 de Franz Schubert
Streichquintett C-Dur D 956 (Op. Post. 163)

1 - Allegro ma non troppo
2 - Adagio
3 - Scherzo. Presto - Trio. Andante sostenuto
4 - Allegretto

Emerson String Quartet + Mistlav Rostropovich

CD PARA BAIXAR:

http://rapidshare.com/files/14169055/Schubert_String_Quintet_in_C__D._956_Emerson_String_Quartet_Rostropovich.rar


Próxima postagem, mais monumentos de Schubert!

ÓTIMA AUDIÇÃO
PEDRO.